Replico aqui a entrevista de Robert Crumb para a Folha de São Paulo, feita por Raquel Cozer.
Crumb descansou no quarto ano. Antes, criou Deus, o paraíso, Adão e Eva. E viu que Eva era boa. Ou melhor, avantajada. Após extensa pesquisa, o cartunista Robert Crumb, 66, lança em outubro aquela que é considerada a principal publicação em HQ no ano. “Gênesis”, versão ilustrada do primeiro livro da Bíblia, respeitou “palavra por palavra” do texto original. O livro deve sair logo depois no Brasil, pela Conrad.
?O autor de “Fritz the Cat” e “Mr. Natural”, símbolo da contracultura nos anos 60, conversou com a Folha por telefone na sexta-feira, com a voz tranquila e a ironia que lhe são características. Falou sobre o novo trabalho e sobre não saber (quase) nada de francês após 18 anos vivendo na França -mora no sul do país com a mulher, a cartunista Aline Kominsky-Crumb-, deu opiniões como sempre ácidas sobre sua terra natal, defendeu teorias conspiratórias e comentou o uso de sua obra. Veja trechos a seguir. ?
Foi difícil definir como desenharia Deus?
ROBERT CRUMB – Bem, tive esse sonho em que vi Deus, em 2000. Foi intenso e vívido, teve efeito profundo em mim. Mas não pude olhar por muito tempo. A forma como o desenhei lembra só vagamente como era no sonho. Também me baseei em imagens de Deus na cultura ocidental, o patriarca de barba branca e expressão severa.
O sr. iniciou o projeto em 2005. Por que demorou tanto?
CRUMB – Foi o maior projeto que já fiz. Pesquisei muito, fui detalhista. Cada página me tomou dois ou três dias, e eram mais de 200 páginas. Mas fiz outros projetos nesses quatro anos, houve interrupções… Como as colaborações com a Aline para a revista “New Yorker”.
O quanto conhecia do texto da Bíblia antes disso?
CRUMB – Não sou estudioso da Bíblia, ainda não conheço bem o resto dela, mas de certo me tornei estudioso do Gênesis. Li de perto para ter certeza de que tinha feito os desenhos direito. Vi meu trabalho como o de um ilustrador, não o de alguém que estaria tirando sarro do texto. Queria, como dizer, revelar o texto tanto quanto possível.
O sr. não quis tirar sarro…
?CRUMB – Não, eu não quis.
…mas há uma ironia intrínseca ao fato de ilustrar esse texto, que é fazer pessoas pararem para pensar no que está escrito, não?
?CRUMB – Sim, é verdade… No sentido de fazer pessoas pararem para pensar, existe sim.
Por que decidiu fazer isso?
?CRUMB – Estava com uma ideia de ilustrar o paraíso, e um agente sugeriu que, se eu fizesse todo o Gênesis, ele arrumaria uma editora que me daria muito dinheiro para isso. Falei: “Veja o que consegue”. Depois de alguns dias, ele voltou e disse: “Consegui uma editora que vai pagar muita grana”. E respondi: “OK, eu faço isso”.
Como avalia a história?
?CRUMB – É uma história poderosa. A coisa toda, antes de ser escrita, foi mantida pela voz do homem. Algumas das histórias, com isso, perderam todo o sentido. Como a de Abraão, sendo um tipo de cafetão da própria mulher para o faraó do Egito. Isso é estranho. Minha conclusão é que eu não usaria o Gênesis como um guia moral [risos].
E o personagem Deus…
CRUMB – É duro, severo, patriarcal e tribal. Cuida de sua tribo, os hebreus, que pressionam os outros. Diz: “Essa terra será sua, podem pegá-la”. E eles a tiram das pessoas que já estavam lá, os cananeus. Isso é uma coisa tribal. Naqueles tempos, cada tribo tinha seu “deus mais alto”. Quando conquista outra tribo, impõe ao outro povo esse “deus mais alto”. Era comum.
O sr., que sempre foi chamado de chauvinista, na introdução cita como o homem alterou o Gênesis até apagar o papel da mulher…
CRUMB – Bem, não é a história da mulher. No começo da cultura suméria, havia um matriarcalismo lado a lado com o patriarcalismo. À medida que a sociedade cresceu, foram impostas forças militares, que colocaram no poder seus líderes, que viraram reis, que impuseram herdeiros. O matriarcalismo perdeu poder. De certa forma, isso sobrevive no Gênesis, se você olha com cuidado.
Já faz quase 20 anos que o sr. mudou para a França, certo?
?CRUMB – Faz 18 anos.
Fala algo em francês?
CRUMB – Não falo nada em francês. Minha mulher fala. Não vou a cafés, fico em casa. Quero dizer, posso ir ao mercado livre e perguntar se há discos antigos: “Est-ce que vous avez des disques 78 tours?”. Isso eu posso fazer. Mas não conversar.
Como é seu dia a dia? Imagino que não leia jornais…
?CRUMB – Não. Ouço discos antigos e leio muitos livros. Virei um leitor voraz. Leio livros de jornalismo investigativo, que expõem meandros do sistema financeiro, da corrupção…
E os desenhos em parceria com a Aline, como funcionam?
CRUMB – Depende. Trabalho as ideias dela, passamos de um para o outro. Funciona bem. Aline é uma comediante judia nata.
O sr. acha que o traço dela melhorou ao longo dos anos?
CRUMB – Não… [risos]. Não ficou melhor do que era. Os desenhos dela são crus, mas são engraçados. O que você vê é tão honesto, primitivo…
Faz oito anos que os EUA sofreram os ataques de 11 de Setembro. Acredita que o país mudou?
CRUMB – É complicado. Foi a primeira vez que houve um ataque daquelas proporções nos EUA, supostamente de fora. Pessoalmente, acho que o governo americano estava envolvido. Muita coisa não foi contada. Aquilo não poderia ser feito sem a ajuda de alguém de dentro. Com todos os livros que li, sabendo o que sei sobre o mundo financeiro, militar… Não duvido de que tenham feito isso, ao custo de milhares de vidas.
Na internet há muita gente que pensa assim… E está mais otimista agora, com o Obama?
CRUMB – Espero o melhor, que ele consiga realizar algo. Eu o acho um cara decente, que quer fazer a coisa certa. Mas, sabe, há políticos, organizações, que estão fazendo de tudo para matar o cara. Não literalmente, mas matar o que ele tenta fazer, para fazê-lo parar. Mas ele é um cara limpo, eles não conseguem achar nenhum escândalo sexual, financeiro, nada.
Após “Fritz the Cat”, ainda tentam fazer filmes de suas HQs?
?CRUMB – Por anos, de tempos em tempos, alguém pedia para tornar meus cartuns em filmes. Cheguei até a autorizar, mas sempre deu em nada. Agora querem usar minhas coisas na internet, em iPhones, porcarias assim. Há uma pressão para pôr minhas coisas nesses negócios eletrônicos. Tenho me sentido obrigado a lidar com isso…
Significa que veremos algo do sr. em celulares em breve?
CRUMB – Estou negociando. Pode ser que fale: “Danem-se, não quero”. É tudo experimental. Ver HQ no celular? Sei lá…
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5 Comentários
O Millor Fernandes também tem uma bíblia bem ontotológica.
Gostei da idéia desse projeto de um Gênesis ilustrado, mas provavelmente a igreja vai cair matando quando for lançado.
Um erro grosseiro de portugês, que prejudica muita gente: “nata” em “comediante judia nata”. A palavra correta é INATA, ou seja, característica não adquirida, proveniente do nascimento. NATA é a substância formada pelo leite deixado ao relento.
Prevejo polemica….
então Castrezana,a revista Piaui desse mes publicou o Genesis segundo Crumb demais,confira;aliás já publica Crumb há algum tempo…..