Fernanda e o Burning Man 2007 (parte 01)

Fernanda Breta é uma veterinária de sampa que eu conheço faz uns dois anos, apenas pela internet. Desde o final do ano passado ela me pedia para publicar o texto e as fotos dela no Burning Man 2007. Como velocidade é o forte do OMEdI, estou publicando hoje e pedindo descupas a ela, pelos pequenos problemas que eu tive. Ai está a primeira parte (tem um monte de texto, credo):

Eu nasci no Canadá, por acaso. Meus pais são de Salvador e eu passei minha infância e adolescência viajando entre a Bahia e Minas Gerais. Há mais de 10 anos que resido em São Paulo. Sempre que me perguntam de onde eu sou, me vejo titubeante. Mas em Agosto agora, descobri que posso dar uma resposta mais direta para a pergunta que, até então, me deixava desconcertada. Eu sou de Black Rock City, a cidade temporária que surge no deserto de Nevada, EUA, anualmente, e que também poderia ser uma obra de ficção do Ítalo Calvino em seu livro "As Cidades Invisíveis". Aliás, uma leitura fantástica na mais exata ascepção da palavra.

A primeira vez que ouvi falar no Burning Man foi quando eu estava mochilando pela Europa, logo depois de me formar, em 1997. Eu tinha muitos amigos "moderninhos" que falavam sobre a torre da Helco num evento em que o diabo aparecia para comprar o Burning Man das mãos do próprio Larry Harvey (o fundador do Burning Man). Este teatrinho rolou no anterior, quando o evento fazia 10 anos. Apesar de toda esta falação, eu não dei muita bola e continuei com minha viagem, rodei a Europa inteira, fui à África e ao Oriente. Cresci muito naquela viagem de vários meses ao redor do Mundo, estive em lugares incríveis, vi coisas impressionantes e conheci muita gente interessante, inclusive uma brasileira que é uma grande amiga até hoje, a Lalai, cada dia mais famosa na noite paulistana. Foi neste ano que freqüentei raves de 20 horas seguidas, no interior da França e em bibocas modernosas na Alemanha e Inglaterra. Puta experiência, mas eu queria usar a viagem também como lastro pro meu trabalho, então, como boa taurina, pus os pés no chão e fui conhecer os zoológicos e a fauna silvestre dos outros países que estavam no meu roteiro.

A vontade de ir ao Burning Man nunca desapreceu neste intervalo, só me faltava conjugar tempo, dinheiro e disponibilidade. Sempre me lembrava do que me falavam do festival quando eu via menções ao evento em revistas ou em sites. Então no final de 2006 eu comecei a separar uns dias na minha agenda de 2007, comecei a juntar grana e a rezar muito para que nenhuma flutuação da economia global colocasse o dólar a quase R$ 4,00. Tudo estava indo bem, até meu namorado dizer que não poderia viajar comigo, ele é baterista e no período da minha viagem, teve que cumprir com outros compromissos. Falei que eu poderia ir sozinha, mas não queria deixá-lo triste. Ele não é tão ciumento assim, por outro lado, sabe que o Burning Man é um troço, digamos, "perigoso". Só relaxou quando eu disse que uma amiga nossa também iria junto. A Zinha, que fez veterinária comigo e com quem, no tempo da faculdade, eu mantive uma amizade colorida. Ele achou ótimo, e até me deu uma espécie de "carta branca" dizendo não considera traição se eu beijar amigas nossas (frisou bem o "amigAs"). Hahaha, homens! Realmente, ficou muito mais tranqüíla a situação. Black Rock City, aí vou eu!!!

Meu contato na gringa era o Gerald, amigo que conheci no ano passado (2006) em Barcelona, num congresso de veterinária, ele é representante de uma empresa que faz mini-guindastes para transporte de cavalos (pegar o animal anestesiado e colocar na mesa de cirurgia) e super frequentador do Burning Man há alguns anos. Ele e a mulher, Laura, moram em São Francisco, EUA, nas horas vagas são artistas plásticos e tatuadores em horas ainda mais vagas. Marcamos de nos encontrarmos em Reno, o último ponto de civilização antes do deserto. Eu disse que ia levar uma amiga, e a Laura achava que eu me referia a um eufemismo de "ficante", ou seja, um homem. Ela tinha plena convicção que "Zinha" era o nome dele, deu pra ver o alívio na expressão dela quando viu que a Zinha era uma mulher franzina. Cara, Reno me lembrou Springfield, dos Simpsons. É uma cidade do interior, os habitantes andam e falam como se estivessem sendo filmados, com um andar e um semblante que diz "sim, é isso mesmo, é assim que eu gosto de andar". Ou talvez as expressões corporações e assuntos de conversas que vi sejam apenas uma resposta à visita de Bush à cidade, pouco antes de eu ter chegado lá. Enfim, eu não queria tirar conclusões equivocadas sobre o lugar nem sobre seus moradores, foi só uma primeira impressão, as coisas estavam "diferentes" mesmo. Ah, a Zinha não viajou comigo porque eu saí de Curitiba direto pra lá, e ela partiu de São Paulo. Aliás, saiu da minha casa: pedi a ela pra passar lá e pegar algumas coisas que eu não pude ou simplesmente me esqueci de trazer comigo, quando fui a Curitiba.

De Reno a Black Rock City são cerca de 2 horas de carro. Lá, as pessoas me cumprimentavam com "welcome home", e isso realmente começou a fazer sentido pra mim, mais do que apenas um cumprimento, ao longo dos dias até o final do festival, quando se tornou quase que uma constatação. Eu sou de Black Rock City. Esta é uma cidade especial, imagina um lugar cheio instalações artísticas interessantíssimas, formigas gigantes, cavaleiros jedis, arco-iris duplos, mulheres humanas traindo seus maridos robôs e uma alteração do tempo impressionante. Não falo do clima, nem de simulações de estética futurista ou art-decó, me refiro ao tempo mesmo, à inclassificável característica de todas as coisas, o visgo da existência. Lá, as horas são usadas para especificar lugar e não o tempo. Porcausa do formato circular da planta de Black Rock City, as ruas radiais têm o nome das horas, conforme "se encaixam" num relógio de ponteiro, e as ruas concêntricas se chamam (do centro para a borda) Esplanade, Arctic, Boreal, Coral Reef, Desert, Estuary, Fresh Water, Grassland, Habitat, Intertidal, Jungle Kelp Forest e Landfill. Então quando você fala que vai ter uma rave no Coral de Recife às 4:30, você está dizendo onde a rua Coral de Recife se cruza com a rua 4:30. Quando essa rave vai acontecer??? Cara, não importa, esta pergunta é um grão da areia no solo do deserto, e o Burning Man acontece em cima disso tudo. Areia que resseca o visgo e lhe dá rachaduras de acesso a outras dimensões.

Queimaram o homem! O nome Burning Man ("homem em chamas", livre tradução) refere-se à queima da estátua de um homem erquido a 10 metros de altura, feita de mateira e aço, no centro de Black Rock City. A origem deste "ritual" remota ao ano de 1986, quando seu fundador, Larry Harvey, foi traído pela namorada e, totalmente enlouquecido e de porre, construiu um homem de madeira que representava o pivô da traição e tacou fogo nele. No ano seguinte, ele repetiu a brincadeira, desta vez com alguns amigos e amigos dos amigos presentes apenas pela farra. Isso rolava em Baker Beach. No ano seguinte, a mesma coisa, desta vez com muito mais gente. Porcausa da concentração de pessoas, nos anos seguintes as autoridades sugeriram a mudança do evento para o deserto de Back Rock, onde acontece até hoje. Tudo isso é fato, exceto o motivo real da primeira queima. Larry Harvey diz, hoje, que a queima do homem representa um ato libertário e espontâneo de arte. A história da traição virou mito.

Eu esperava a queima do homem para o último dia do festival, e perguntava sobre a queima do templo ("Temple of Forgiveness", onde as pessoas deixavam pertences e fotos de amigos e familiares que se foram, escreviam mensagens e desenhos que gostariam de deixar no passado. A destruição do templo nos faria lembrar que as coisas se vão e que este é o plano do Cosmos para tudo e para todos), mas me disseram que o templo seria queimado no último dia e que o homem seria destruído antes, no dia 30 de Agosto.

Pois bem, em noite de Lua Cheia as coisas ficam meio estranhas, certo? No Burning Man, numa noite em que também estava programado um eclipse lunar, dia 27 de Agosto, alguma coisa estava no ar, as pessoas sentiam alguma coisa diferente. E a coisa aconteceu: queimaram o homem antes da data marcada! Posteriormente soubemos que Paul Addis havia acendido o boneco em protesto contra o formato "disney hippie" em que o Burning estava se transformando. Quando a coisa aconteceu, ninguém entendia nada. Aliás, tinha gente entendendo demais: atribuindo o fogo prematuro ao eclipse lunar, ao alinhamento dos astros. Bom, a Lua estava vermelha, realmente. Podia ser irônico, e também bonito, me permiti ler isso. Mas não consegui embarcar no restante da maionese.

Agora ajude o @castrezana.

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17 Comentários

  1. Em 01/03/2008 às 23:18 | Link

    E pensar que eu achava que os desenhos do Leal (fotolog.net/leal) deixavam a Fernanda mais bonita do que realmente era. Impressionante como é o contrário!!

  2. gvt Claudio
    Em 01/03/2008 às 23:34 | Link

    Mó viagem essa viagem..hehe….mas o mais interessante de tudo isso é que a Fernanda é muito gostosa e alem de tudo é entendida….sonho de consumo.
    Ela poderia fazer um ensaio fotográfico especial para o Omedi.
    Convence ela Castrezana!!

  3. gvt PC Almeida
    Em 02/03/2008 às 01:43 | Link

    Estou procurando info sobre o Burning Man para mostrar a um prof da minha facul. Se rolar, fazemos uma “caravana” até lá, com umas 10 pessoas! Cara, que loko esses caminhões retorcidos. E falando em eclipse lunar, teve um a poucos dias atrás, visível no Brasil.

  4. gvt anonimo
    Em 02/03/2008 às 13:08 | Link

    Acho que todos vocês já perceberam que Fernanda Breta é uma fraude né?

    Há tempos que esta fraude está por aí, e muita gente acredita…

    É só ver as montagens (mal feitas) no album do orkut, tentando simular uma pessoa real.

    abraços

  5. Em 02/03/2008 às 19:38 | Link

    O Burning Man foi uma das melhores experiencias que tive na vida. Recomendo a todo mundo.

    As fotos da minha passagem pelo Bman 2006 estao aqui: flickr.com/photos/…s/72157594479127183/

  6. Em 02/03/2008 às 22:03 | Link

    Sensacional… simplesmente sensacional. É assim que quero me encontrar um dia, ou encontrar minha origem, saber enfim, quem eu sou… demais a viagem!

  7. gvt França
    Em 03/03/2008 às 00:11 | Link

    fala dessa mulher aí Castrezana, que personagem é esse? no orkut, como o amigo abaixo disse, dá pra ver claramente que as fotos são fake…

  8. gvt Alexandre
    Em 03/03/2008 às 00:28 | Link

    Putz,

    essa própria foto aí dela no burning man de tênis tá muito mal feita.

    Quem procurar no orkut pode ver no album “dela” um série de “fotos” do mesmo nivel.

  9. gvt Marcos
    Em 03/03/2008 às 02:54 | Link

    Eu conheço a Lalai, e acho que já vi a Fernanda. Se for quem eu estou pensando, a mulher é linda!!! E que baita viagem essa, deve ter sido lindo o eclipse com a escultura em chamas. Fico imaginando que “momento especial” vocês sentiram…

  10. gvt Raks
    Em 03/03/2008 às 11:53 | Link

    Fê… Como sempre demais! Adorei o texto e mesmo tendo visto as fotos no álbum na sua casa é sempre surpreendente demais! Um beijo pra vc.
    Ah! E a Juliana, que nao conseguiu te encontrar aquele dia lá em casa disse que vai te mandar um e-mail.
    Bjos

  11. gvt Zinha
    Em 03/03/2008 às 12:28 | Link

    A Lalai é demais! E esta viagem foi foda!!!

  12. gvt Alexandre
    Em 03/03/2008 às 14:25 | Link

    e ainda aparecem fakes para tentar simular uma possível existência “de verdade”

  13. gvt Mauricio
    Em 03/03/2008 às 20:09 | Link

    Que viagem incrivel! O Burning Man deve ser foda mesmo, nunca tinha ouvido falar. E o texto está ótimo, deveria ter mais foto pra essa quantidade de texto.

  14. gvt Marcelo Augusto
    Em 04/03/2008 às 00:20 | Link

    Não tem nenhum texto falando da viagem a Barcelona??? Tô afim de conhecer a cidade, é a mais “baladeira” da Europa. Pelo menos do tipo de balada que eu curto.

  15. Em 04/03/2008 às 13:35 | Link

    Fico só imaginando o Bush falando e fazendo besteira lá em Reno, certamente foi porcausa dele que as pessoas estavam querendo responder algo com expressões corporais! E essa viagem ao Burning, caraco, me deixou com água na boca, muito interessante! Acho que já tinha ouvido falar, não me lembro. Essa história de festa no deserto não me soou tão inédita assim.

  16. gvt "Róge" (Rogério)
    Em 06/03/2008 às 12:47 | Link

    Ahhh, duvido que as pessoas não usem relógio para combinar um horário pra se encontrar. Mesmo as ruas tendo nome de horas, basta falar rua 15:30 às 17:30hs, pô! Mas parece muito foda o Burning Man. Quero ver fotos da escultura pegando fogo. Parabéns!

  17. Em 06/03/2008 às 19:43 | Link

    Nossa, eu fui mencionada no texto! Fê, sua redação está ótima, e a viagem parece ter sido fantástica, literalmente. Conheço o Burning Man de ouvir falar, espero ir um dia, num futuro próximo. Te vejo na crew! Parabéns, bjs!

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