Estamos na época da contracultura eletrônica, dos hippies digitais. A internet é novidade ainda, é terra de ninguém e basta um computadorzinho em casa, uma conexão meia-boca e meia-dúzia de idéias na cabeça para alguém se transformar em gerador de conteúdo. Lógico que a grande maioria dos usuários ainda são os caretas e os quadrados, os bocós digitais. Só que isso é outro assunto.
Os blogs são a grande ferramenta para os maconheiros da informação. Eles permitem que qualquer um escreva e publique suas idéias, por mais toscas que sejam, e de graça! É um mundo que ainda existe de maneira underground, que lembra muito os fanzines dos anos 80, feitos à mão, copiados em xerox e vendidos a um real cada nas esquinas das faculdades. Só que agora com um alcance global, ilimitado.
Esses baderneiros cibernéticos chegaram enfiando o pé na porta e expulsando as garotinhas que tomavam conta desse espaço. Sim, originalmente ter e escrever em um blog era coisa de menina adolescente, até que um sujeito qualquer criou coragem e entrou nesse mundo, e levou com ele uma horda de bárbaros sedentos por um formato livre para escreverem suas idéias revolucionárias.
Apesar da lírica imagem que eu descrevi acima, esses bárbaros são na verdade somente bons rapazes classe-média, pseudo-intelectuais entediados com a sua vidinha sedentária e pouco objetiva, aprendendo a praticar a anarquia e descobrindo de maneira limitada uma liberdade que não conheciam. A liberdade de escrever sobre o que interessar, e como quiser. Crítica, poesia, desabafo, paródia, e sobre qualquer coisa! Tudo é permitido.
Mas existem os problemas. Quando um sujeito que escreve em um blog começa a acreditar no seu potencial para influenciar pessoas ele naturalmente tenta elevar o nível das suas idéias e quase que imediatamente se transforma em um ser pretensioso. O ego dos blogueiros (do ser humano, diga-se de passagem) é sensível, qualquer comentário positivo começa a inflá-lo. E depois que começa é complicado parar, indo diretamente para um mundinho onde ele começa se achar o dono da verdade.
O conceito principal é ter ciência que ser blogueiro é ser tosco e proletário, e no momento que alguém resolve se afastar disso corre o risco de parecer bobo. O amadorismo faz parte da brincadeira, é ele que fala com o leitor, no momento que alguém decide deixar de ser amador passa a correr o risco de virar um mainstream desconexo, uma mídia vazia, e a mídia não fala diretamente para o sujeito comum, ela apenas vende o que interessa a ela.
E não podemos esquecer daqueles vermes que tem pressa em explorar e faturar nesse novo fenômeno cultural, antes que ele passe, descobrindo quais são os blogs mais populares, para comprarem suas idéias e inserirem anúncios de celulares e cerveja em seus textos. E os bons rapazes são presas fáceis para esses predadores capitalistas, basta um aceno com alguns trocados e pronto! Se no final do mês der pra comprar um iPod, fica todo mundo feliz.
Eu sou blogueiro. Eu me vendo de vez em quando. Eu sou hipócrita. Eu sou amador. Eu gosto de ter minha visão particular da realidade. Eu não sou sutil. Eu não consigo ler a maioria dos blogs sérios e profundos que estão por ai. Eu sou chato. E daí? Seja você também um blogueiro, libere o seu ego, seja feliz. É uma atividade que pode facilmente substituir um psicanalista. Ou não, vá andar de bicicleta, ler um livro, fazer compras em um shopping.
Dizem por ai que você é ou parte do problema ou parte da solução, uma coisa ou outra. Pensando bem, se não houvesse problema ninguém procuraria uma solução, e eu não quero nem saber qual é a minha parte nessa brincadeira, eu quero é brincar.
Texto publicado na revista PIX nº 12.
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18 Comentários
Sensacional esse texto.
Acho que você tava precisando desabafar, né? hehehehe
Concordo em muita coisa, contigo. Por isso, demorei tanto pra entrar nesse mundo blogueiro. Ainda mantenho um layout simples e tal. Espero não is para o lado negro da força, hahaha. Abraço.
Viva o amadorismo, a futilidade, a liberdade de pensamento e todos aqueles que gostam de “brincar de Roberto Marinho” com seus blogs.
Oq começou como um diario virtual hj tem o mesmo poder dos grandes sites e portais!! Muito legal o texto!
http://seriemaniacos.wordpress.com/
Texto sensacional!!!
A autoria é sua, Castrezana?
É sim.
Vocês se levam muito a sério. Daqui a pouco vai ser que nem grafiteiro que se divertia fazendo a parada e depois virou artista, anda sério e bebe vinho.
Pelamor.
É, “pseudo-intelectual” cai como uma luva pra esse texto.
Ainda acho que você devia investir mais tempo com o psicanalista, pra curar um pouco da paranóia histérica.
Vi tanta gente comentando sobre o post dos cem melhores discos, e fiquei meio com remorso de não ter comentado nada, embora não fiz nenhum download, porque ouço pouca música ultimamente…
Mas agora foi espetacular: bacana por lembrar o papel dos blogs hoje, quando saíram de diários de adolescentes entediadas pra elementos difusores de idéias. E tiro o chapéu pra você, Castrezana, por conseguir ter um blog sempre atualizado, escrevendo sozinho! É foda ter sempre uma boa idéia, moldá-la pra colocar num blog… O duro foi quando o pessoal achou que daria pra ficar rico, com isso.
E ter um blog é bom, mas não eliminou minha psicanálise, não…
Tá parecido com meu perfil do orkut, com um pitada do meu antigo blog… digo a viagem, a idéia, saca ?
Não é à toa que gosto daqui. rs
O negócio é que o Castrezana bebe demais.
Aliás… devia ter um post aqui com a lista das melhores cervejas nacionais!
yeah!
viva o blog =P
Breve uma psicanalista pra eu saber porque tenho um blog hiauhioauhaioha
Fato.
Belo texto. Parabéns! Só espero que isso não infle demais o seu ego e te faça achar que é o dono da verdade.
Hehehehe.
Se preocupe não, meu ego já é bem inflado. A diferença é que eu faço um mea culpa de vez em quando.
ta certo é isso aew.. e nao precisa ficar so em blog nao.. pode abrir uma radio online que é massa tbm
Por essas e outras que sou sua fã. Tendo ou não crises de “mea culpa”, você simplesmente sabe expor uma idéia aplausível, quero um dia ver uma palestra sua, não importa do que for! E foda-se quem não concorda comigo. Bjs!
*plausível